quarta-feira, 28 de março de 2007

Fiel amigo, até quando?


O bacalhau é um alimento milenar.
Originário das águas frias dos mares que circundam o Pólo Norte, existem registos que mostram a existência de fábricas para o seu processamento na Islândia e na Noruega desde o século IX. Os Vikings são considerados os pioneiros na sua descoberta pois a espécie abundava nos mares que navegavam. Como não tinham sal, apenas secavam o peixe ao ar livre, até que perdesse quase a quinta parte de seu peso e endurecesse como uma tábua de madeira, para ser consumido aos pedaços nas longas viagens que faziam pelos oceanos.

O mercador holandês Yapes Ypess foi o primeiro a fundar uma indústria de transformação na Noruega sendo, por isso, considerado o pai da comercialização do peixe industrializado. A partir de então, a procura do peixe passou a crescer, o que proporcionou o aumento do número de barcos pesqueiros e de indústrias pela costa norueguesa, transformando a Noruega no principal pólo mundial de pesca e exportação do bacalhau.
Dá que pensar: o bacalhau (Gadus morhua) já foi, em tempos, um alimento muito barato. É interessante verificar que o bacalhau de má qualidade era utilizado na alimentação dos escravos e o excelente era importante no comércio entre a Amér
ica e a Europa. Por exemplo, em Salem, o comércio de bacalhau era das actividades económicas mais importantes no século XVII, de tal forma que, quando o seu tribunal - criado em 1692 - interrogou centenas de mulheres acusadas de bruxaria e enforcou 19 delas, o selo do tribunal era um bacalhau.
O bacalhau foi uma revolução na alimentação. Deve-se ter em conta que os aparelhos de refrigeração/congelação apenas apareceram no século XX. Até essa data, era frequente a degradação dos alimentos. Mas, o método de salgar e secar o alimento, além de garantir a sua perfeita conservação mantinha todos os nutrientes e apura
va o paladar. A carne do bacalhau ainda facilitava a sua conservação salgada e seca, devido ao baixíssimo teor de gordura e à alta concentração de proteínas.
Um produto de tamanho valor sempre despertou o interesse comercial dos países com frotas pesqueiras. Em 1510, Portugal e Inglaterra firmaram um acordo contra a França. Em 1532, o controlo da pesca do bacalhau na Islândia desencadeou um conflito entre ingleses e alemães conhecido como as "Guerras do Bacalhau".

Há vários anos que os portugueses introduziram nos hábitos alimentares este peixe. Descobrimos o bacalhau no século XV, na época das grandes navegações. Na época eram necessários produtos que não se alterassem muito de modo a suportar as longas viagens. É curioso verificar que em 1596, no reinado de D. Manuel, se mandava cobrar o dízimo da pescaria da Terra Nova nos portos de Entre Douro e Minho. Hoje, Portugal é o maior consumidor mundial de bacalhau.
Existem 1000 maneiras de fazer bacalhau! Pois é, esta espécie está a ser vítima da sua popularidade em cozinhas de todo o mundo.
A pesca excessiva tem conduzido a uma drástica redução dos cardumes de bacalhau. Nas últimas décadas, a modernização da indústria pesqueira levou a que a captura fosse mais eficiente, o que acelerou o processo de extinção.


Actualmente, não são só os cardumes que estão menores, mas também os peixes, pois a captura é tão elevada que não há tempo para que os peixes cresçam.
A solução parece óbvia, reduzir ou mesmo parar com a captura deste peixe. Para a Organização Internacional de Exploração dos Mares (CIEM) os stocks de bacalhau podem acabar dentro de 15 anos e proibir a sua captura é a única oportunidade de recuperarem. Segundo esta organização a capacidade reprodutiva do bacalhau é reduzida e a mortalidade causada pela pesca indica uma redução insustentável do stock. Não há opção, é urgente a abolição da pesca de bacalhau no Atlântico Norte por considerar que está em causa a sobrevivência da espécie.
Só assim se conseguirá evitar a extinção do nosso “fiel amigo”…

4 comentários:

Elloc disse...

Olá caro amigo!

Pelo pouco que vi vc é um defensor da natureza. Vc por um acaso conhece um vídeo chamado Eatherlings(acho que é assim)? Se vc possuir esse vídeo, por favor, entre em contato comigo, ok?

abr@ços!

Edmundo Bolinhas disse...

O bacalhau está em perigo mas isso não se nota no comércio alimentar. Vamos continuar a consumir bacalhau, a um preço relativamente acessível, até ao limite do absurdo.
Estamos demasiado envolvidos nos mecanismos de mercado para se conseguir tomar decisões, em termos de oferta e de procura, que tenham um impacto efectivo na protecção da espécie.
Só em Portugal, quantas empresas vivem em exclusivo da captura, processamento e comercialização do bacalhau? Mesmo nas grandes superfícies, que oferecem uma enorme diversidade de produtos, não estará o bacalhau na lista dos alimentos mais vendidos? E quantos milhões de euros são transacionados só na quadra natalícia?
Todas estas questões reflectem o nosso grau de "dependência" e a nossa "incapacidade" em agir objectivamente ,não só na protecção do bacalhau mas também na defesa da biodiversidade em geral.

roliveira disse...

A popularidade do bacalhau faz dele uma espécie em risco, mas uma forma de diminuir a pressão que existe na pesca excessiva deste peixe é arranjar substitutos para o mesmo! Já vos aconteceu comer "bacalhau" e achar que a textura e o saber eram ligeiramente diferentes? É que por vezes utiliza-se um peixe da família, a abrótea, para se passar por aquele. O preço é o mesmo, apenas se leva "gato por lebre", sendo assim o consumidor iludido com este produto. Será errado utilizar um substituto? Se impedir a extinção do bacalhau sim, mas com que consequências? Ficará também a abrótea em perigo? A cultura pode por vezes ser um impedimento para a preservação da biodiversidade.

Maria Helena Ribeiro disse...

É verdade, a cultura pode ser um impedimento para a perservação da biodiversidade.
Assim, o bacalhau é um peixe em perigo mas não é por isso que não deixa de ser capturado em grande quantidade, porque o factor económico pesa nas decisões, a par do gosto da população portuguesa pelo chamado "fiel amigo" e parece que com menos peso da extinsão da espécie. De facto a "incapacidade" de tomar decisões e de agir objectivamente é um grande problema com graves repercussões na defesa da biodiversidade, em particular e do ambiente, em geral.